quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Autopsicografia

"Autopsicografia"

O poeta é um fingador.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só que éles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão
Ésse comboio de corda
Que se chama o coração.
(Fernando Pessoa, Autopsicografia, pg. 165)

Esse poema talvez seja um dos poemas mais profundas que já compreendi. Quando o li pela primeira vez, não entendi absolutamente nada. Não sabia o que Pessoa queria dizer, e não achei que eu poderia entender. Mas ao conversamos em sala de aula sobre isso e realmente entrar no poema e ver o que Pessoa quer ilustrar ao leitor aqui, eu sinto como se uma janela tivesse se aberto para mim.

O poeta é um fingador, um ator que pinta uma imagem para o leitor que não existe. O leitor acha novas verdades que o escritor nem conheceu nunca.
O poeta faz com que o leitor sinta algo que o poeta nem sentiu na sua vida.
Pois o poeta talvez nem conheça a dor direito.
Mas ele escreve para fingir que a conhece.

O poeta escreve palavras lindas para descrever as emoções que são impossíveis a entender. O amor, o medo, o ódio, os sentimentos que temos que nem sabemos o que são. O poeta faz tudo isso.
Portanto, no final do dia, o poeta tem conseguido convencer o leitor que tem sentimentos que não há.
Que talvez nem existam.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Ser poeta

Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!



É ter de mil desejos o esplendos
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!



É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!



E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente! (Florbela Espanca, Ser poeta, pg. 352)

Esse poema é mais que profundo. Espanca usa muitas metáforas aqui para descrever como é ser poeta. Não é como ter fome...é ter fome. Não age como algo, é algo. Ele utiliza o verbo "ser" no sentido mais literal para criar uma conexão entre ser poeta e o mundo familiar que todos conhecemos.

Como é quase uma tarefa impossível descrever de verdade como é ser um poeta, Espanca também utiliza a scema de rimar para enfatizar a impossibiidade de descrever como é ser poeta e criar poesia que muda a mente das pessoas.
Adoro os primeiros versos, a primeira linha: "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior / Do que os homens!" Ser poeta não é ser um ser humano normal como qualquer outro, mais alguém que conhece o mundo por uma perspective completamente diferente.

sábado, 15 de outubro de 2016

If It's Square, It's a Sonnet: O Soneto é Curto.

One of the old French philosophers and wits, Blaise Pascal, apologized for writing a long letter, saying, "I had not time to write a short one." (Thomas C. Foster, How to Read Literature like a Professor, pg. 27)

É facil escrever algo longo e cumprido, anotando todos os pensamentos que vêm à cabeça e entram na sua mente. É difícil pegar os seus pensamentos e forçá-los a caber em um espaço pequeno. Acontece que um soneto é um "espaço pequeno". Por esse motivo mesmo que a forma importa tanto, porque a maneira que escrevemos arte pode fazer toda a diferença ao leitor e na maneira que ele interpreta a sua escrita.

Um soneto é curto, e exige forma. Por isso que o soneto é tão lindo; quando o lê, vê que tem exigido muito pensamento, muita paciência e muito ponderar em como rimar os fins das linhas. Escrever also cumprido pode ser rápido, porque você não tem que pensar em como cortar as suas frases e linhas. Mas fazer algo curto exige mais tempo. A forma define o soneto, ao fazê-lo bom ou ruim.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Homem no mar: o testemunho

Acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção (Rubem Braga, Homem no mar, pg. 84)

O narrador desta crônica não conhece esse homem nadador, nem sabe nada dele. Mas ainda assim, ele o acompanha o tempo todo.
Esta parte me tocou na palavra testemunho. O narrador se vê como testemunho do que aconteceu; neste caso, ele se vê como testemunho de que o homem nadou no mar a distância que viu. Mesmo sem conhecer este homem, ele sente prazer em poder testemunhar a algo que um estranho tem feito e cumprido.

Todos nos somos testemunhos de pessoas que não conhecemos: celebridades, atores, atlétos, autores, homens de negócios, e muito mais. Embora não conheçamos essas pessoas pessoalmente, também sentimos um prazer em vê-los terem sucesso. Sentimos uma esperança no ser humano, uma luz que nos diz que porque eles conseguiram algo maravilhoso e incrível, nós também podemos conseguir coisas maravilhosas; nós também podemos cumprir os nossos sonhos.

O narrador também escolhe a escrever essa crônica para mostrar que às vezes, são as coisas pequenas e simples que realmente contam na vida. O narrador não sabia o que o homem era, se era advogado, médico, professor, ou pai. Mas ele via um homem sucessivo, alguém que tinha conseguido algo. Não importava o que o homem tinha conseguido na vida, mas naquele momento, somente importava que ele conseguiu chegar ao outro lado. E o narrador achou isso incrível.