sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O Conto da Ilha Desconhecida

Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és (José Saramago, O conto da ilha desconhecida, pg. 45)

Se não sais de ti, não chegas a saber quem és. O rei no começo não queria dar o barco ao homem, ele não queria acreditar que podia haver algo mais do que já conhecia. Mas o homem tinha outra perspectiva, ele tinha a humildade suficiente para aceitar o fato de que ele não sabia de tudo. De que ele não tinha toda sabedoria, de que ele tinha muito para aprender. Ilhas desconhecidas.

O homem do barco tinha uma profissão. Ele tinha algo para voltar se nada desse certo. Mas ele queria riscar tudo isso para achar mais algo que poderia existir. Ele queria achar o que ninguém tinha achado ainda. Ele queria ser mais, ele queria saber mais, conhecer mais. Não necessariamente mais que alguém, mas para ele mesmo, ele queria ser mais. Ele ia "sair de si" e chegar a saber quem ele realmente era.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A chinela turca: paixões fortes

- Então! Que tal lhe pareceu?

- Ah! excelente! respondeu o bacharel, levantando-se.

- Paixões fortes, não?

- Fortíssimas (Machado de Assis, A chinela turca, pg. 38).

O Duarte tem acabado de sair de um sonho incrível, uma aventura da imaginação. O major está perguntando ao Duarte o que ele achou do drama, e o Duarte responde com uma resposta aceitável. Enquanto a resposta do Duarte é exatamente o que o major quer ouvir nesse momento exato, o que o Duarte está dizendo não é o que o major pensa de jeito nenhum. Adoro esse duplo sentido.

Isso veio bem no finalzinho do conto para enfatizar o que deve estar acontecendo na mente do Duarte nesse momento. Consigo vê-lo, nadando através um mar de pensamentos na própria cabeça dele, nem dando atenção ao que o major está perguntando. As paixões fortes que o Duarte agora tem não são do drama do major, mas dessa realização de que "o melhor drama está no espectador e não no palco."

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Missa do galo: a contradição

Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me (Machado de Assis, Missa do galo, pg. 29)

A dificuldade num texto que tem um narrador autodiegético é o fato de que o leitor nunca sabe se pode confiar no narrador. É o caso do texto Missa do galo. Já não confiamos no Nogueira e a história dele, não sabemos se ele está agindo como o rapaz que é ou se realmente a Conceição estava tentando seduzir ele. Aqui o Nogueira diz que ele nem lembra todos os acontecimentos daquela noite. Se ele não lembra, como é que nós vamos confiar no conto dele?

É difícil confiar num narrador que admite que nem lembra de todas as memórias. Talvez ele esteja sendo honesto, mas talvez ele esteja tentanto esconder alguma coisa do leitor. Não dá para saber exatamente o que está passando pela mente dele nesse momento.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Uma fé nova e viva

Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: - Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e viva (Machado de Assis, A cartomante, pg. 20).

No começo do conto, lemos que o Camilo "não acreditava em nada." Mas à historia terminar, ele agora tem uma fé "nova e viva." O que mudou? No começo ele não estava preocupado. Se estava, fingia bem. Ao passar pela guerra interna que o Camilo passou ao sofrer a tribulação do seu próprio pecado, ele chegou a ter um desejo de acreditar. Esse desejo veio não do amor, mas do medo de ser descoberto pela pessoa que mais amava como amigo.

Camilo escolhe acreditar nas palavras da cartomante para se aliviar dos sentimentos de culpa e remorso que estava sentindo sem cessarem. Ele nunca quis acreditar antes por falta de necessidade. A escolha do Camilo em obter esta fé "viva" nos dá um olhado à mente dele, mostrando ao leitor que ele não queria verdadeiramente obter uma fé ou uma crença inabalável. Ele somente queria se livrar do fardo que tinha pesado nele o tempo todo. Isso mostra a ingenuidade do Camilo e mais ainda susta o leitor ao chegar ao final do conto, terminando com o assassinato dele.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Interpretação

Interpretation looks in two directions through the medium of the person interpreting: it looks at the artifact or text, and it looks at the audience for whom the interpretation has been formulated. All of these elements--artifact, interpreter, audience, and also occasion--affect interpretation, although much interpretation pretends that only the artifact governs the process (David B. Paxman and Dianna M. Black, Interpretation is Many Things, page 67, no. 3).

Muitas pessoas pensam que a interpretação é somente o que o leitor vê numa passagem específica. Outras acreditam que o escritor determina o que o leitor vai pensar e crer. A interpretação se acha no meio desse dois extremos. A interpretação não é um ponto em que o leitor chega; nem é somente uma ideia. A interpretação é o processo e a transformação que o leitor passa em se achar pensando em ideias que outras pessoas têm pensado e escrito.

Não há uma maneira certa de interpretar as coisas. Sim, é verdade que várias pessoas talvez cheguem à mesma conclusão depois de lerem algum texto. Mas toda pessoa que existe tem passado por experiências próprias. Todo ser humano tem passado por seu próprio inferno e seu próprio céu. Todos nós temos ideias, opiniões, e crençãs diferentes. Quando somos dados um texto para interpretar, é óbvio que vamos interpretar a mesma leitura numa maneira diferente da pessoa ao nosso lado. O escritor determina o que lemos, mas nossas vidas determinam como percebemos as ideias que obtemos.

Vejo o melhor exemplo de interpretação ao lermos as escrituras. Toda vez que as lemos, adquiriremos nova revelação e inspiração. Suponhamos que leio o sétimo versículo do capítulo três de primeiro Néfi hoje. Vamos supor que eu observe que um ano atrás, eu anotei ao lado do versículo uma revelação que recebi no momento que o li naquela hora. Mas hoje não recebi a mesma revelação. Recebi uma outra, uma mais profunda que a de um ano atrás. Por que? Por que podemos ler a mesma coisa em momentos diferentes e obter conhecimento tão diferente? Por que nos mudamos. Estamos nos tornando pessoas diferentes ao viver as nossas vidas.

Por esse motivo que não podemos julgar os outros quando interpretam algo diferente que nos o interpretamos. Estamos em lugares diferentes. Temos passado por diferentes provas e experiências. Que possamos aceitar as opiniões e interpretações de todos, enquanto aceitando que todos nos como filhos de Deus estamos neste caminho juntos aprendendo em velocidades diferentes.